Como ter uma família emocionalmente inteligente

Como ter uma família emocionalmente inteligente

O mais velho tem más notas. A mais nova faz birras de manhã. O pai cruza os braços, a mãe grita e até o cão está em crise… É possível aprender a lidar com um quotidiano caótico e criar uma família emocionalmente inteligente? Duas psicólogas explicam-nos como.

Imagine que alguém lhe pede que se descreva enquanto mãe.

Lembra-se imediatamente de meia-dúzia de coisas que fez mal ou que devia ter feito de outra maneira: aquela bofetadazita no Tiago quando se recusou a sair de casa porque queria acabar de ver os desenhos animados… Aquele grito à Ritinha quando, 45 minutos depois de se sentar à mesa, continuava com o bife inteirinho à frente… E ainda há quem queira ser mãe… Segundo as psicólogas Sandra Azevedo e Ângela Coelho, é esse o principal obstáculo a sermos bons pais: nunca pensamos naquilo em que somos… bons. E hoje em dia, quando se fala tanto em afastamento de pais e filhos, o que se vê são pais cada vez mais preocupados em aprender.

Sandra e Ângela não pretendem ‘ensinar’ nada: elas querem orientar. Psicólogas de formação, decidiram, depois de serem mães, criar um projecto próprio e inovador ligado ao trabalho com famílias. Foi assim que nasceu o ‘Family Coaching’ (pode visitar o site em www.familycoaching.pt), uma empresa pioneira que se dedica acima de tudo aos workshops com grupos de pais, onde tentam em conjunto arranjar soluções para aquilo que mais os aflige no dia-a-dia. A diferença entre o ‘coaching parental’ e outras abordagens é simples: aqui não há soluções pré-fabricadas. Cada um tem de encontrar a sua. Dá trabalho, pois dá: mas já viu algum tipo de treino que não dê trabalho?

Como cada família é única, não há receitas para vos apresentar. Mas Sandra e Ângela deram-nos algumas ideias para ‘muscular’ a sua resistência familiar e lidar melhor com as ‘horas venenosas’ do seu dia.

1. Descubra os seus limites

“Aquilo que nós fazemos é levar os pais a parar para pensar quais as guerras que querem comprar e as que não valem a pena”, esclarece Sandra Azevedo. “Porque tudo passa por aí. Nos nossos workshops, podemos começar por lançar temas sobre as coisas que mais preocupam os pais: a gestão do tempo, as questões relacionados com o stresse de conciliar a vida pessoal e profissional, como sobreviver às ‘horas venenosas’, a dificuldade em gerir aquelas horas do dia em que estão todos juntos e cansados… Ultimamente, as pessoas preocupam-se muito com as ‘birras dos pais’, e a questão da disciplina e dos limites. Mas o que nós notamos é que os pais não têm dificuldade em impor limites, têm é dificuldade em clarificá-los para eles próprios.”

 

2. Perceba o que torna única a sua família

Já teve aquela sensação de que uma solução não se aplicava ao seu problema? Muitas vezes, os conselhos que nos dão – as pessoas, os amigos, as revistas, a televisão – não funcionam, simplesmente porque a ‘receita’ não se nos aplica. Cada família tem o seu conjunto de regras e valores, por isso é que não pode adaptar o mesmo modelo da família da sua amiga à sua família e esperar que funcione. “Os pais são os maiores especialistas da sua família”, lembra Ângela Coelho.

“Chegam-nos sempre à procura de ideias e estratégias que possam utilizar, e nós não funcionamos assim”, explica Sandra. “Cada família é única, cada elemento dessa família é único em si, cada família tem um conjunto de valores e rotinas que não são replicáveis. Portanto, cada uma tem de encontrar aquilo que funciona com ela.”

3 – Adopte expectativas realistas

“Se me vier dizer: ‘Ah, eu gostava de acabar de jantar às 9, e às 9h05 as crianças estarem na cama’, se calhar isso não é um objectivo muito viável…” lembra Ângela. O problema é que, várias vezes, os pais se sentem completamente descontrolados face a uma vida que parece saltar-lhes das mãos a toda à hora sem que eles tenham qualquer poder contra isso. “Mas quando começamos a analisar as coisas, eles começam a respirar fundo e a perceber que, passo a passo, é mais fácil descobrir um caminho”, explica Ângela. “A ideia é parar para pensar, e depois dividir um grande problema em bocadinhos mais fáceis de resolver.” Aqui, ter expectativas realistas é importante para encontrar soluções. “Às vezes, aquilo que eles ambicionam pode não ser exequível”, nota Sandra. “Por isso, primeiro definimos objectivos, e depois vamos ver aquilo que é preciso fazer para chegar lá. Não vamos falar de um tema, vamos propor um conjunto de exercícios que os vão ajudar a chegar onde querem. O mais importante é a abordagem positiva: obrigamos os pais a parar, a olhar para eles e pensarem nas imensas coisas que fazem bem feitas, nas competências que já têm, e a partirem daí

 

4 – Veja o lado positivo da vida

Pois, uma alínea especialmente difícil de cumprir para a maioria de nós, habituada ao conforto de chorar em ombro alheio. Mas especialmente importante se pensarmos em tudo o que queremos conseguir. “Olhamos sempre para as questões pelo lado da solução, e não pelo lado do problema,” explica Ângela. “Aqui, começamos por perguntar às pessoas o que é que querem. O que é que gostaria que o seu filho fizesse? E em que situações é que isso é mais difícil? O que é que costuma acontecer nesse contexto e o que é que podemos fazer? Muitas vezes, a gente pergunta o que é que elas querem e elas nunca pensaram nisso, porque sempre estiveram focadas no problema, no que é que não queriam!” Então mas o que é que muda na minha vida se eu, em vez de pensar no que é que não quero, pensar no que quero? “É que a partir daí vamos encontrar maneiras de chegar lá! Se pensar no que é que não quer, não chega a lado nenhum.”

“Isto devolve às pessoas uma sensação de controlo, sem que esse controlo tenha a carga negativa a que estamos habituados: é o eu poder decidir o que é que eu quero”, conclui Sandra.

5 – Identifique os seus ‘botões de birra’
Toda a gente sabe, sendo ou não sendo mãe: os adultos também se fartam de fazer birras. Por delicadeza connosco próprios, nunca lhe damos esse nome, mas que são as nossas zangas quotidianas senão ‘birras em espelho’? Pois: há situações em que parece que alguém carrega num botão e nos salta a tampa. “O que nós fazemos é levar as pessoas a identificar os seus ‘botões de birra’ e a definir estratégias que possam usar quando isso acontece, seja antes do ‘botão’, seja depois do ‘botão'” explica Ângela. Resultado: uma espécie de ‘desprogramador interno’ de birras adultas, que vai fazer com que, quando a tempestade nos apanha, já não nos apanhe sem rede, despreparadas, descontroladas.

 

6 – Trabalhe em conjunto

Esquecemo-nos muitas vezes de que um casamento ou uma relação é um trabalho de equipa: e é urgente retomá-lo. Isso não quer dizer que pai e mãe estejam sempre de acordo, quer dizer que um sabe o que o outro pensa. “Pai e mãe não têm de pensar igual em tudo, mas um dos problemas é que as pessoas muitas vezes formam família sem conversarem uma com a outra sobre aquilo que pensam e aquilo que querem”, lembra Ângela. “Por exemplo, ontem tivemos um casal que estava a conversar sobre as ‘horas venenosas’ deles, e a certa altura o pai dizia, ‘podemos fazer isto’, e a mãe respondia, ‘isso para mim não faz sentido nenhum, mas se isso te deixa mais tranquilo, tudo bem’.”

“Também pode acontecer que cada um tenha o seu plano para reagir a uma situação, mas o que é importante é que conversem sobre as reacções diferentes que têm”, acrescenta Sandra. Por exemplo, pode acontecer que o pai tenha mais dificuldade em lidar com a hora da refeição e a mãe com a hora do banho: por que não cada um ficar com a ‘pasta’ que lhe é mais fácil?

7 – Mude-se a si própria

Ideia principal: nós não podemos mudar os outros mas podemos mudar-nos a nós próprios, e aquilo que mudarmos em nós vai ter impacto nos outros. “É um erro muito comum, esta ideia de que eu posso mudar os outros – filhos, maridos, amigos”, explica Sandra. “O facto de eu fazer depender os meus objectivos de outras pessoas, é muito frustrante”, alerta Ângela. “Muitas pessoas retiram a sua felicidade do facto de conseguirem mudar o outro, e aplicam toda a sua energia em mudar aquela pessoa, quando se calhar, se a investissem a pensar no que é que poderiam fazer para mudar a sua atitude, a sua posição em relação àquela situação, a sua maneira de gerir o problema, teriam muito melhores resultados. O problema é que é muitíssimo mais complicado mudar-nos a nós próprias do que mudar os outros.”

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